Somos Seres Humanos

Muitas vezes, sou questionado sobre como se deve tratar uma pessoa com deficiência visual. Para mim, é precisamente esta a forma correcta: pessoa com deficiência visual. Aliás, “pessoa com deficiência” devia ser o termo utilizado para caracterizar uma pessoa com qualquer tipo de deficiência. A expressão não me incomoda, pois não é considerada especial, nem a minha deficiência é colocada à frente do meu carácter ou da minha personalidade. Abomino termos como “cegueta”, por ser usado com sentido pejorativo; ou “ceguinho”, por soar a “coitadinho” ou até mesmo “invisual”, pois não se trata de alguém que não tem visual… O termo “cego”, sinceramente, não me choca, porque me define. Sou mesmo assim: cego – pessoa sem o sentido da visão. E até me agrada a sua utilização, desde que não seja usado de forma desdenhosa ou compadecida. Encaro a cegueira como uma característica própria e dispenso qualquer referência a esta característica em tom amistoso. Não faz qualquer sentido. Senão, vejamos, também não tenho cabelo e nem por isso me chamam “portador de deficiência capilar”. Chamam-me “careca”. Então, porque é que a expressão “cego” pode ser conotada com algo depreciativo e “careca” não? E porque o emprego da palavra “cego” pode levar a interpretações depreciativas, esta é frequentemente substituída pela expressão “portador de deficiência visual”. Mas, questiono: é possível deixar a deficiência visual em casa tal como deixo o passaporte, o cartão de cidadão, os óculos de sol ou qualquer outro objecto do qual seja portador e que posso, a todo o momento, descartar? Se a deficiência visual não é descartável, porque me chamam de “portador de deficiência visual”? Ah, como eu, cego, gostava de um dia sair à rua e poder apreciar uma mulher a caminhar pela rua ou a sorrir ou acenar para mim e tudo isto porque me esqueci da deficiência visual em casa a carregar a bateria… É por isto que acho preferível e mais correcto o termo “pessoa com deficiência visual”, tal como se diz “pessoa com barba”, “pessoa com caracóis” ou “pessoa com olhos azuis”. Porque não se portam estas características. Elas são parte de integrante de nós. Acredito, e é compreensível, que ninguém goste de ser apelidado de deficiente, tendo em conta que esta palavra é tantas vezes empregue com desdém. Daí, preferir o termo “pessoa com deficiência”. As pessoas não são deficientes, têm deficiência. Por vezes, pergunto-me se serei eu realmente cego, porque não vejo, ou se serão os outros, que não querem ver. Já dei por mim a “ver” e a fazer coisas que outros não se apercebem ou nem conseguem fazer. É certo que, para muitas tarefas, tenho de recorrer a ferramentas e técnicas próprias e, só neste aspecto, tolero o termo “pessoa com necessidades especiais”. Afinal, tenho de reconhecer que tenho essas necessidades e que outras pessoas não as têm, por não possuírem as minhas características. Mas não me agrada. Se pensarmos numa pessoa de estatura baixa, que tem necessidade de recorrer ao auxílio de um banco ou escadote para conseguir retirar um recipiente da prateleira mais alta de um armário, também dizemos que tem necessidades especiais? Então, porque dirão que tenho necessidades especiais porque recorro a uma bengala para identificar obstáculos no meu caminho? Tenho necessidades como qualquer outra pessoa, mas não as considero, nem me considero especial. Em suma, todas as pessoas têm características diferentes umas das outras. Ninguém é perfeito, ninguém sabe tudo e todos temos alguma deficiência. Considero-me uma pessoa com múltiplas deficiências: visuais, capilares, monetárias, de status social, de paciência para a hipocrisia e a indiferença, e, neste momento, de uma boa ideia para terminar este texto… Mas o que interessa ressalvar é, qualquer que seja o termo a usar, o importante é a forma e o respeito com que o empregamos para retratar um ser humano, pois quero muito acreditar que, no fundo, ainda é isso que todos somos – SERES HUMANOS.O Pedro Nogueira à escuteiro (fardado) ao lado de um caça (avião) da frota da Força Aérea Portuguesa.

publicado por: Pedro Nogueira

em: 2016-08-24